quarta-feira, 14 de maio de 2014

Acende um incenso, faz uma simpatia


             Lembro que na minha infância minha irmã vivia lendo as revistas do João Bidú. Às vezes ela fazia umas mandingas que aprendia com ele. Eu sempre ia espiá-la, e sempre eu era expulso, e ela nunca respondia minhas perguntas.

             A rua da minha casa não era asfaltada, mas era bem arvorada, fazendo com que a rua fosse toda sombreada e com frestas que faziam o sol penetrar.
Tive minha primeira amiga nessa mesma época e ela estudava comigo. Certo dia estávamos lanchando no playground do colégio. Eu comia uma maçã enquanto ela comia um pão com queijo. Conversávamos algo quando ela me beijou no rosto e saiu correndo. Não nos falamos pelo resto da manhã.

        Minha babá ia me buscar na escola, e nesse dia ela percebeu que eu não estava tão hiperativo e nem falando pelos cotovelos como normalmente, seguimos calado o percurso todo.
Cheguei em casa e continuei comportado e mudo. Minha mãe perguntou o que havia acontecido. Não respondi, mas minha irmã disse que era amor e contou toda a situação.
Eu nem sabia o que era amor. Na verdade até hoje não sei o que é. Mas ela disse que era por quê eu era do signo de peixes, e pisciano é propício a isso.

        No outro dia fui ao colégio, e ela estava lá com a sua mãe. A mesma veio falar comigo disse que eu era muito novo pra me apaixonar, que era pra parar de falar sobre aquelas coisas com a sua filha. Continuei sem falar com a garota na aula, eu estava quieto, quando minha babá perguntou se o amor não estava sendo correspondido e minha irmã continuou afirmando que era. Minha irmã  disse que ia ler uma simpatia do João Bidú sobre amor não correspondido e me ajudaria fazer e que tudo aquilo iria mudar. Minha babá achou genial.
No outro dia descobriram que aquilo não tinha haver com meu signo, nem com amor e nenhuma simpatia do João poderia dar jeito, pois, eu estava com catapora.
Fiquei em quarentena em casa. Nada de colégio, nada de quintal, nada de natação, bicicleta. Brincava apenas com meus irmãos dentro de casa, pois, eles já tinham pegado, então não tinha risco.

         Me recuperei um mês antes do fim do ano letivo e tudo tinha zerado entre eu e a minha amiguinha. Voltamos a ser como carne e unha, andávamos de mãos dadas, brincávamos e lanchávamos juntos. No ultimo dia de aula estava tendo reunião de pais e mestres, eu e ela estávamos sentados na escada quando dei o primeiro beijo. Na verdade ela quem me beijou.
- Tom, vou viajar. –ela disse.
- Pra onde? –perguntei.
- Vou pra fortaleza visitar meus avos. Minha mãe disse que vamos voltar pouco antes das aulas começarem. Vou sentir saudades.
- Eu também. Espero que as férias passem bem rápidas.

         As férias chegaram e me lembrava dela. Nos fim das férias eu já tinha esquecido-a. Nunca mais a vi. E nunca mais senti saudades. Acho que o nome dela era Fabiana. Não me lembro. Faz muito tempo.