terça-feira, 1 de abril de 2014

Marina, Eu, Meu Pai e Todo o Resto

               

                Segui pela orla do Sta. Inês sentido centro, o vento do amazonas estava forte, mas não amenizava os primeiros vestígios de suor saindo de minha testa. A maré estava baixa e assim eu podia sentir o cheiro de merda e lixo que torna o rio mais lindo do mundo em uma piada para o povo tucuju.

                Poderia ter alguns jogadores de futelama à margem desse rio tão lindo, mas o que havia eram urubus comendo tripa de porco. Em um bairro cheio de matadouros clandestinos é normal se deparar com cenas como esta.

Pensei nos trabalhadores dos lixões, e seus problemas com álcool, e com a falta de comida, e o cheiro de seus lares e até mesmo nas dúzias de filhos que os ajudam os pais pra nas despesas do barraco. Eles também devem urubus, pois, devem saber que são protegidos por lei. Sendo os urubus protegidos por lei, a tendência é aumentar a população de aves tão odiadas, mas que contribuem pro meio ambiente ao contrario de nós.

Quando estava em frente ao teatro me deparo com Marina com uma tatuagem do Bike Mice From Mars em sua grossa coxa direita. Ela tem uma bela perna pra uma menina magra.
Ela odeia Nirvana. Diz que Nirvana foi a maior merda dos anos 90. A única coisa boa que o vocalista fez, foi ter se matado levando consigo milhares de fãs que também fizeram o mesmo quando souberam de sua morte. Não discordo tanto dela.

                Ela tinha um péssimo hábito de me chamar de cretino ou cachorro, e sempre me convida pra tomar café em uma cafeteria que tinha ali na alameda, eu, por minha vez sempre recuso o convite.
(...)
                - Com um cretino como você não gosta de café? –Me perguntou.
                - Bem, você tem o direito de não gosta de musicas, e eu tenho o direito de não gostar de café. – Respondi.
                - Tem chocolate. Aceita?
                - Não gosto de chocolate também. Obrigado mesmo assim.
                - Não gosta de café. Não gosta de chocolate. Não gosta de comer. Não gosta de dormir. Do quê tu gosta?
                - Beber, transar, ouvir musica e ficar deitado.
                - Bem tipinho escritores e poetas.
                - Não. Esse tipo de gente sabe como se defender.
                - E Você não sabe?
                - Não.

Um urubu pousa do outro lado da viela, e pensei: Urubus devem ser o cruzamento de pombo, galinha e rato. Evitei o comentário pra não dá motivos pra Marina me chamar de idiota.
Um senhor me olhou sério por cima dos óculos. Ele era cauvo, moreno, usava um bigode e tinha nariz de batata. Lembrei do meu pai. Será que tal sentimento é particular de todos de origem pisciana?

                Marina falava algo sobre a faculdade dela.
                - Tenho três trabalhos pra entregar...
                E eu pensava: “O que meu diria se me visse aqui? Talvez ele ficaria orgulhoso de saber que seu filho caçula não gay...
                -... Não agüento mais o meu professor de...
“... Acho que isso é saudade do meu pai. Tenho que ir visitá-lo. Também quero arrumar um emprego e quem sabe uma namorada depois...”
-... Acho que vou tomar outra xícara. Que um cigarro?
- Ah! Sim. To precisando de um mesmo. –aceitei.
- E como está indo o curso?
- Ah, ta legal. To aprendendo coisas sobre ergonomia e higiene no trabalho.
- Vamos embora? –ela me pergunta já pagando a conta.
- Pra onde? –pergunto.
- Tomar uma cerveja naquele quiosque da Veiga Cabral e depois ir pro curso.
- Pode crer. Vamos lá.

                Marina é tão linda, pena que não tem atitude na cama. Seu sorriso branco. Seus belos seios macios e arredondados. Seu ódio por musica. Seu amor por café, fotografia, livros, filmes, lugares calmos. Sua vontade de querer viver pra sempre em todos os lugares que ela já viajou. Os urubus, essa cidade, Kurt Cobain, moradores de lixão, eu, meu pai, o chocolate, o Rio Amazonas são apenas defeitos e qualidades que mostram que Deus sabe o que faz.


                Eu só queria transar aquele dia, mas acabei indo pro curso e ela foi pra um bar junto com seus amigos Hipsters e descolados. Ainda bem que Deus sabe o que faz. Hoje ela está grávida e eu não estou na lista dos supostos pais. Que bom. Não consigo me imaginar sendo pai daquela criança.